2 de novembro de 2013

MAGO: A ASCENSÃO - Esse dia vai chegar


"O líder nacional da organização tecnocrata estava só, suando frio e segurando firme o encosto da cadeira sem conseguir disfarçar ou esconder o medo. Luciano, pelo contrário, tinha um sorriso sarcástico no rosto. Dos três Magos, ele era o que mais sentia prazer em finalmente encontrar seu inimigo poderoso em uma condição tão frágil:
 - Veja! Um ás de espadas! Tirei um agora há pouco! É o mesmo que tirei na noite em que o helicóptero do seu pessoal quase nos matou nas docas, "Doutor"... Lembra disso? Atiraram em nós! Acertaram minha amiga! Mas agora você está aqui, na MINHA mira... O destino é fascinante, não é mesmo!? Tão cheio de surpresas!

- Vocês são uma ameaça! O helicóptero, na noite do naufrágio? Eu dei as ordens, sim! A Mágika de vocês é...
 
- Pshhhhh! Cale essa boca! - interveio Pedro, fazendo um esforço colossal para conter seu ódio e impaciência. Baltazar, atrás deles, sentia-se desconfortável e não sabia como reagir. Estava tentando se distrair com algum aplicativo vulgar em seu smartphone, mas ainda assim começara a suar frio como seu inimigo. A violência eminente era demais para sua personalidade pacífica e ele se esforçou para fazer uma brincadeira: - Espera aí, Luciano! O Instagram está carregando aqui!

Ninguém riu com ele. Seus companheiros não sabiam o que era Instagram e mesmo que soubessem, estavam tensos demais para esboçarem sorrisos. Lhes incomodava o fato de finalmente terem conseguido chegar ali e ainda assim não conseguirem "começar". Se perguntavam porquê. Foram tantos anos sofrendo com a perseguição da organização daquele sujeito, de seus assassinos sanguinários, e agora que estavam diante dele, não conseguiam fazer nada. Iriam interrogá-lo? Simplesmente deixá-lo partir? Tudo parecia mais uma brincadeira do destino, daquelas que fazem momentos bons darem muito certo ou coisas ruins ficarem ainda piores. E assim eles ficaram por mais alguns segundos até que Pedro, impaciente, rompeu o silêncio e tirou seu cachimbo do bolso argumentando algo que convenceu seus companheiros:
- A essas horas os  desgraçados que ele comanda já devem ter descoberto onde estamos. Vamos ficar plantados aqui a noite toda? Nem temos como sair pela porta, preciso me concentrar para tirar a gente! Acabem logo com isso!

Baltazar, muito tenso, não se conteve e tentou balbuciar alguma coisa:
- Mas ele... Na verdade não precisamos de...
- Se vocês não acabarem logo com isso eu vou destruir o espírito desse cara ou expulsa-lo para um plano inferior! Querem que eu faça? - retrucou Pedro. Estava completamente decidido e determinado a acabar com tudo. Algo dentro dele não deixava que se incomodasse ou afetasse com estas situações.

Luciano concordou com Pedro e tentou justificar as iniciativas: - Tem que ser assim, Baltazar. Lembra de quantas vezes estivemos por um triz com os assassinos dele? Quer que eles continuem na nossa cola? 
Olho por olho, dente por dente! É justo. - Ele trazia consigo a frieza de um ex-agente duplo, de ações de risco, negócios diretos e julgamentos simples. E assim, sem tempo e paciência para se preocupar com opções melhores, guardou a carta no bolso e estendeu os braços segurando a arma com as duas mãos. Já se preparava para declarar e executar a sentença quando o tecnocrata se levantou rápido estimulando o andamento dos fatos; não resistira às ameaças e conseguiu juntar coragem para levantar e tentar proferir insultos:
- Vocês não sabem o que fazem! São monstros lunáticos! Boçais! Aberrações! A mágika é prejudicial à humanid...

BLAM!

Estava feito. Baltazar virou de costas para não ver a execução, ressentido com a violência que julgava desnecessária, mas o projétil ainda assim partiu da pistola em uma viagem certeira, bem como o Ás de Espadas da Mágika entrópica havia garantido. O velho estava morto.

Pedro assistiu tudo com indiferença e apenas piscou com o som alto do disparo da arma enquanto acendia seu cachimbo. Com a primeira tragada, em segundos a fumaça subiu e as tatuagens que apareciam acima da gola de sua camisa começaram a se mover sob a pele. Eram desenhos tribais que dançavam coordenadamente pelo seu corpo, sempre formando novas figuras em movimentos que seguiam o ritmo das palavras Tupi-Guarani que ele pronunciava. Uma antiga Mágika de teleporte estava sendo invocada.

Luciano, o carrasco, ficou parado observando o sangue escorrer na tela brilhante dos computadores enquanto o velho desabava sentado novamente. Com isso a cadeira de couro do escritório correu para trás com seu usuário sem vida; as rodas criando um rastro de sangue no assoalho. Até o piso branco também ficara vermelho, com uma poça enorme, mas Luciano, mestre do Tempo e da Entropia, só via mais uma "lembrança do futuro", uma espécie de Déja Vu; um episódio sem graça da vida, com cenas que ele sentia já ter visto antes. Sentia o Jor... Nem as palavras místicas em Tupi-Guarani, em tom cada vez mais enfático, conseguiam distraí-lo. Ele só voltou a si quando a fumaça de pólvora entrou pelo seu nariz, fazendo-o lembrar do passado obscuro no Rio de Janeiro. Foi aí que ele se virou, percebendo que agora havia silêncio. Pedro vinha caminhando sério na sua direção, segurando Baltazar pelo braço, e então houve um grande estouro explosivo que sacudiu tudo, mas eles se juntaram a tempo e a antiga Mágika indígena os teleportou dali.

Os três não tinham certeza, mas agora o edifício ruía, bem no centro de Montevideo. Mais um "ataque terrorista" na cidade. Mais terroristas a serem caçados.

Na terra do pacífico Mujica, a guerra iria continuar.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Você pode comentar na modalidade "anônimo", sem precisar LOGAR em nenhuma conta.
Sua opinião e crítica são fundamentais; obrigado por comentar!