22 de maio de 2009

Samedi









"Pude vê-lo graças a luz clara daquela noite de lua cheia. Respirava ofegante, parecia estar exausto. Tinha um olhar fixo indestinguivel tão assustado quanto o meu, uma mistura de medo e ódio, talvez. Depois de algum tempo me encarando, fugiu dali se esgueirando entre os arbustos até sumir rapidamente na penumbra levando consigo seu mal cheiro insuportável.
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Passado o pânico, corri para casa e busquei minha espingarda. Passei o resto da noite em prontidão no celeiro, não podia deixar que aquele monstro ou seja lá o que fosse fizesse algum mal aos animais. Estes, que estavam agitados desde o início da noite, permaneceram assim durante horas, até as três, no momento em que o uivo imponente veio da floresta, devolvendo a paz e a tranquilidade a tudo.
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No outro dia, muito curioso, fui à floresta em busca de pistas da criatura horrenda que havia visto durante a noite; Com excessão do mal cheiro que impregnava todo o lugar, não encontrei nada além de árvores muito arranhadas. Foi quando me dei conta de que não queria mais saber o que tinha acontecido ali."
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Tiarles M. Rodeghiero

7 de maio de 2009

PERGAMINHO I

Já vi gente desenhar Kobold assim, parecido com cachorro. Não fica muito condizente com o parentesco deles com os dragões, mas a criatura até que fica legal.

O Jovem Ork e a Bola de Fogo


"Para o jovem ork a viagem pela floresta era só mais uma entre tantas, mas não foi assim para um aventureiro que ele encontrou no caminho, pendurado em enormes teias de aranha. Para uma pessoa normal, ou não-bárbara, por assim dizer, as florestas ermas do oeste eram repletas de surpresas...

Coragem não é o bastante, e curiosidade mata... Mas o Ork não estava preocupado em 'como' o aventureiro morreu, mas sim em saber 'o que' ele carregava ao morrer. Em minutos o cadáver que jazia na teia estava no chão. A aparência sinistra do morto não intimidava o Ork, que fuçava nos bolsos da roupa do infeliz buscando algo que o interessasse.

No chão estava uma espada enferrujada que ao que tudo indica, era a que o morto empunhava quando foi atacado pelas donas das enormes teias. A espada não interessou-lhe muito. Já a roupa que o cadáver vestia era de boa qualidade, mas não havia sobrado muita coisa dela. As aranhas não deviam distinguir muito bem o gosto de tecido e o da carne humana. Uma pena.

No fim da revista a única coisa que o Ork curioso havia achado e gostado era um pedaço de papel. Um que ele guardou nas calças ao sair às pressas, dando-se de contas que as aranhas poderiam estar a espreita, preparando-se para atacá-lo a qualquer momento.

Andados alguns quilômetros, tendo caído já a noite, montou uma pequena fogueira no centro de uma clareira e dedicou-se então a examinar o seu achado. Com cuidado, retirou do bolso o papel, antes de sentar-se. Já acomodado, bastaram alguns segundos para que seu semblante alegre e curioso desaparecesse. Ele não sabia ler e, portanto, seu achado não passava de um papel cheio de rabiscos dispostos em linha.

Entristecido, desistiu ele de decifrar os riscos e pôs o papel sobre as chamas da fogueira, descartando-o completamente enquanto matutava em sua cabeça à procura de algo novo com o que se preocupar.

Sua inteligência precária, herança de sua vida selvagem entre os bárbaros, não possibilitou ao coitado saber que seu pedaço de papel com riscos era um pergaminho. Quanto muito que era um pergaminho de 'Bola de Fogo', uma magia perigosa de ataque.

Em poucos segundos sobre o fogo, o elemento em questão, o pergaminho foi ativado espalhando labaredas de fogo descontroladas por toda a clareira, iluminando a floresta, fazendo da noite dia enquanto queimava tudo ao seu redor antes mesmo que o Ork percebesse.
Sem as sobrancelhas, ele sobreviveu, mas para o resto de sua vida temeu todas criaturas que empunharam um papel riscado contra ele."

1 de maio de 2009

FÊNIX


Certa vez, do ventre de uma camponesa, filho de um nobre, nasceu em Vinci, Florença, uma criança que viria ser um verdadeiro prodígio. Bastante cedo, evidenciando sua elevada inteligência, o pequeno menino - Leonardo era seu nome - foi estudar arte em um atelier de pintura, onde também aprendeu mecânica, carpintaria, química, metalurgia, entre outras coisas.


Aos 20 anos já havia surpreendido e ultrapassado até mesmo o seu mestre, e já contava com encomendas de trabalhos. Leonardo tinha mais que uma facilidade nata, o quê fazia dele tão especial era sua genialidade, que beirava o sobrenatural. Ele logo se tornou um pintor famoso, mas nunca se limitou apenas à arte. Sua curiosidade fez com que ele se dedicasse ao longo de toda vida aos mais variados campos de estudo, onde ele se destacou com suas idéias e projetos brilhantes, coisas muito a frente de seu tempo.


Não havia barreiras para o gênio de Vinci, porém, na metade de sua vida, um questionamento e medo genuinamente humanos mudaram o futuro de sua trajetória. Leonardo havia se dado de contas que até mesmo o maior dos gênios teria de sucumbir um dia à morte, ao fim certo. Uma morte ainda distante para ele, é claro, mas sempre uma incógnita. A incógnita que o incomodava, disposta com mistério em algum lugar desconhecido no seu futuro. A morte era o fato em que ele preferiria não pensar se pudesse, pois não gostava da idéia de algo que não podia evitar ou controlar. Vencer a morte se tornou então uma obsessão para ele e, usando de toda sua intelectualidade, Leonardo se dedicou a partir daquele momento a buscar um meio de driblar a morte, de trespassá-la.


Muitos anos de cálculos e estudos se passaram e Leonardo havia descoberto apenas que a pintura, sua especialidade, seria o meio mais palpável para realizar sua experiência. E assim ele fez, várias vezes, sem muito sucesso, desanimando cada vez mais perante o sentimento de impotência e de fragilidade, algo que ele nunca havia experimentado tão intensamente antes. Ele se preocupava pois já não era mais um garoto, via sua juventude se esvaindo, assim como a esperança que agora escaça, ainda populava seus pensamentos. Foi então que ele decidiu dar a si mesmo uma última chance, uma forma de redimir-se e tentar, pela última vez, cruzar todas as idéias que tinha em busca do truque final.


Em 1503, tendo usufruído de seu vasto conhecimento nas mais diversas áreas, Leonardo chegou a sua fórmula perfeita, à receita de preparo daquilo que ele esperava servir para conduzí-lo à imortalidade. Então, com muita fé no resultado que alcançara, ele começou a trabalhar intensivamente.


Se passaram dois anos até que ele houvesse conseguido, mas finalmente estava pronto, ele havia armado a armadilha para a morte antes que ela o tivesse apanhado.


Sua invenção era um quadro, semelhante aos outros, mas neste ele havia trabalhado com primor e exímio estudo, transformando-o num objeto mágico, com proporções áureas. Segundo ele, após sua morte, o quadro aprisionaria sua alma e só a libertaria novamente quando fosse destruído. Neste momento, acreditava Leonardo, assim como uma fênix, ele renasceria das cinzas de sua obra.

Leonardo só tinha que se preocupar com duas coisas; em garantir que o quadro fosse conservado até após a sua morte, e que fosse destruído logo após ela. A conservação ele garantiu com facilidade, pois ninguém poria uma obra-prima como aquela no lixo tão cedo, aliás, muito pelo contrário, e foi aí que ele falhou. Como ele deve ter percebido, e ainda percebe, preso no interior de sua pintura, seu quadro foi reconhecido mais tarde como uma das mais perfeitas obras de arte do mundo e ainda hoje, 490 anos após sua morte, em 1519, a 'Monalisa' ou 'La Gioconda', como também é conhecida, está exposta no museu do Louvre, em Paris, como uma relíquia, digna de todo isolamento que recebe para conservá-la ao máximo, tardando seu deterioramento.

Sabe-se lá quando o tempo prevalecerá sobre a restauração, permitindo que Leonardo volte á vida. Enquanto isso não acontece, milhões de pessoas continuam a observar, intrigadas, o quadro de Da Vinci. Pobre gênio, traído por seu próprio talento.

Tiarles M. Rodeghiero

SÓ PRA CONSTAR:

Num estudo feito em 1929, através de muita pesquisa sobre o que Leonardo Da Vinci havia feito e estudado, estimou-se que o provável QI(Quociente de Inteligência) dele fosse 180...

Só pra constar, o QI médio da população brasileira é 86, bem abaixo do 100, que é a média mundial. Que coisa não!?